Entrevista - Thomas Tosta de Sá: Mercado terá ciclo virtuoso
Em entrevista ao Boletim Técnico de Debêntures, o sócio da Mercatto Gestão de Recursos e coordenador do Comitê Executivo do Plano Diretor do Mercado de Capitais, Thomás Tosta de Sá, analisa o atual estágio de desenvolvimento do setor e os principais desafios a serem enfrentados a curto prazo. “A turbulência dos primeiros meses de 2008 não deverá afetar o futuro nem da Bolsa nem da economia brasileiras.”
Em comparação com os números apresentados em 2007, o mercado de capitais demonstra uma desaceleração significativa nos primeiros meses de 2008,
especialmente quando considerado o número de lançamentos de ações e de emissões de debêntures. Como o senhor analisa este movimento?
Em recente artigo que publiquei no jornal Valor Econômico intitulado O Ciclo dos Emergentes, escrevi que, pela primeira vez na história de 40 anos do Ibovespa, teríamos um período de alta da Bolsa com duração de 10 a 12 anos, o que faria com que o ciclo iniciado em outubro de 2002 se prolongasse até 2012 ou 2014. Disse também que o ano de 2008 seria de turbulência no mercado. O que temos visto até agora é um comportamento da Bolsa muito volátil, sujeito ao bom humor ou mau humor dos investidores e especuladores de plantão. Esse comportamento, que tem como fundamento a crise do mercado financeiro originada pelos títulos hipotecários do mercado de crédito imobiliário norte-americano, e que afetou de modo geral a economia daquele país, é passageiro e não deverá afetar o futuro nem da Bolsa nem da economia brasileiras. É natural que, a curto prazo, o mercado de capitais reaja negativamente, com recuo do volume de emissões primárias tanto de ações como de debêntures.
Desde 2002, o Plano Diretor concentra debates e propõe aprimoramentos para o mercado de capitais doméstico. Muito foi realizado, mas ainda existem grandes desafios. Como o senhor avalia o estágio atual do Plano Diretor e quais são as questões prioritárias a curto prazo?
O sucesso do Plano elaborado em 2002 pelo conjunto de entidades nele representadas, abrangendo todos os setores da sociedade com o apoio do governo, numa autêntica parceria público-privada, pode ser observado pelo excepcional crescimento do mercado no período entre 2002 e 2007. Como mais de 75% de suas ações foram implementadas, resolvemos lançar no início do ano o Plano Diretor do Mercado de Capitais 2008, que está em fase final de elaboração. Essa nova versão enfatiza, entre outros pontos, a importância de se fazer uma reforma da Previdência que incorpore um pilar de capitalização no regime do INSS, de forma a contribuir para a redução do passivo previdenciário e possibilitar a inclusão de um número maior de trabalhadores nos benefícios do crescimento do país. Além disso, defende a criação de novas modalidades de financiamento para infra-estrutura, habitação e agronegócio via mercado de capitais; o acesso de pequenas e médias empresas inovadoras e empresas de capital fechado a esse mercado; e um gigantesco esforço educacional, por parte de toda a sociedade brasileira, direcionado aos mercados financeiro e de capitais.