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A redução de custos provocada pela queda da taxa básica de juros (Selic) animou as empresas a levantar recursos com a emissão de títulos de dívida no mercado brasileiro. Em contraste com as captações externas, paralisadas desde o agravamento na crise fiscal europeia, as ofertas locais seguem a pleno vapor.
As operações que irão a mercado ainda neste semestre devem movimentar pelo menos R$ 13 bilhões em aproximadamente 20 emissões, apurou o Valor. As ofertas, porém, se concentram em empresas de primeira linha, algo semelhante ao que ocorreu no segundo semestre do ano passado, quando as captações locais se mantiveram firmes, embora restritas, a despeito da piora externa.
Entre as companhias que estão na fila para levantar recursos com emissões de debêntures ou notas promissórias estão gigantes do setor elétrico, como Cemig, Copel e CPFL, e do setor de concessões e logística, como a MRS. O pagamento de aquisições de empresas também deve ser financiado, ao menos parcialmente, via mercado de capitais. A Cosan, por exemplo, aprovou uma emissão de R$ 3,3 bilhões em debêntures para a recente compra da Comgás.
De janeiro a abril deste ano, as captações no mercado de capitais brasileiro por instrumentos de renda fixa atingiram R$ 32,9 bilhões, um aumento de 10% em relação ao mesmo período de 2011, de acordo com dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima). Parte desse volume inclui operações de crédito bancário que são realizadas via debêntures, que são isentas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).
Embora não esteja imune a uma piora externa, o mercado brasileiro deve se manter como uma alternativa de captação de recursos pelas empresas, avalia o responsável pela área de renda fixa do BTG Pactual, Daniel Vaz.
A mudança na remuneração da caderneta de poupança deve contribuir para que a demanda se mantenha aquecida. "Além de remover o piso para a taxa de juros, a medida diminuiu a preocupação de migração de recursos dos fundos de investimento", diz Vaz, ao lembrar que os fundos são hoje um dos principais compradores de títulos privados.
Para o executivo do BTG, o cenário atual condiz mais com a realidade do que a euforia vivida nos três primeiros meses do ano, principalmente no exterior. "Seria preciso a situação internacional piorar ainda mais para afetar o mercado local", diz.
Com as captações externas praticamente fechadas, o mercado doméstico pode ser uma opção para as companhias brasileiras, segundo Carlos Alexandre Lobo, sócio do Veirano Advogados. Foi o que aconteceu no ano passado, quando empresas como a concessionária de rodovias Autoban e a transmissora de energia Taesa, controlada pela Cemig, desistiram dos planos de captação no mercado internacional e optaram por uma emissão local. "O mercado fechado lá fora pode trazer várias operações para o país", afirma.
Com a queda da Selic, e sem a concorrência da poupança, a tendência é que os títulos privados atraiam investidores em busca de uma rentabilidade mais atrativa. A bolsa, que seria uma alternativa natural nesse cenário, passa por um período de forte volatilidade em consequência da incerteza sobre o futuro de vários países na zona do euro.
A maior procura de investidores pelos papéis de renda fixa derrubou a diferença entre a taxa paga pelas empresas de primeira linha e os títulos do governo. A Taesa, por exemplo, planeja uma emissão de notas promissórias pagando 104% da taxa do depósito interfinanceiro (DI). Para efeito de comparação, a empresa realizou uma operação semelhante no fim do ano passado, quando os juros eram maiores, pagando 105,5% da taxa DI.
O grande número de emissões em andamento deve fazer com que os investidores sejam mais seletivos na escolha dos papéis, segundo o superintendente executivo de mercado de capitais do HSBC, Antonio Marques de Oliveira. Para ele, as operações com maior "gordura", ou seja, aquelas que apresentarem a remuneração mais atrativa, devem ganhar a preferência. "Em algumas emissões, o mercado testará um novo patamar de taxa, que os investidores podem não aceitar", diz. O desempenho da economia brasileira em meio à crise é outro fator que merece atenção e pode arrefecer o apetite dos emissores, segundo Oliveira.
Uma deterioração ainda maior no cenário econômico internacional segue no radar. Até o momento, o único reflexo percebido da crise no mercado local foi a maior restrição dos investidores a empresas com risco mais alto, que no caso brasileiro significa emissões com rating abaixo de 'AA-', ou de setores considerados mais vulneráveis.
Um exemplo recente foi o da incorporadora MRV, que teve uma procura para menos de 20% de sua emissão de R$ 500 milhões em debêntures. Na última sexta-feira, a empresa de logística JSL (ex-Julio Simões), que possui classificação de risco 'A-' (escala nacional) teria encontrado demanda para aproximadamente 70% de sua captação de R$ 200 milhões. A empresa fechou a operação, apesar disso. Outras companhias com características semelhantes, como a locadora de veículos Ouro Verde, acabaram desistindo de ir a mercado.
Na prática, nenhuma empresa deixa de levantar recursos se não conseguir demanda, já que a maior parte das operações conta com a chamada garantia firme. Ou seja, os bancos de investimento que coordenam as ofertas se comprometem a adquirir os papéis que não forem vendidos. |
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